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Henrique Agostinho
Henrique Agostinho
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Se há coisa que toda a gente concorda, é que há falta de dinheiro, muita. Era tão melhor ter mais dinheiro, pois, sejam quais forem as chatices actuais, com mais dinheiro, elas não iriam piorar. Ora, se é assim consensual, porque é que não se fabrica mais?

Por causa da inflação, certo? Errado. Imprimir dinheiro nem sempre causa inflação, mas mesmo quando causa, esse incómodo não iria desanimar nenhum governante. A principal razão é que regra geral as pessoas nem fazem ideia do que é o dinheiro, sendo por esse defeito, tragicamente fáceis de enganar.

Ao contrário do que imaginam, dinheiro não é bem aquilo que carregam na carteira, ou acham que têm no banco, isso são essencialmente Dívidas e não é Crédito, uma diferença importante, que para ser explicada, ajuda ir até ao princípio, bem lá atrás, à Idade da pedra.

Dívida <> Crédito

Quando o dinheiro foi inventado, lá nesses tempos antigos, ele ainda não era composto de zeros e uns num sistema informático, nem sequer de notas, moedas ou ouro, era apenas Crédito. E o crédito é o literal oposto das dívidas. Ter crédito significa que outros acreditam. Crer, que está na raiz da palavra. Tem crédito quem os outros acreditam ser capaz de cumprir com a sua palavra.

Esqueçam o mito das Permutas (Barter) que nunca ninguém usou por ser inviável. Nas sociedades primitivas, a riqueza exibia-se pela capacidade de juntar coisas especialmente trabalhosas de arrebanhar. Por exemplo: Cascas de caranguejo na Terra do Fogo; Discos de pedra furada trazidos do outro lado do mar na ilha Yap; Ouro à volta do mediterrâneo; Cigarros nas prisões; Bitcoin nas garagens dos nurds. Quem fosse capaz de acumular essas raridades, era porque tinha recursos para estar vivo e ainda por cima poupar. Era rico, tinha Crédito, podia-se confiar na capacidade de pagar, nem que seja cedendo a propriedade dessas mesmas relíquias raras, agora sim entendidas como sendo dinheiro.

Crédito = Capacidade para Pagar (Qualidade de quem acumulou Capital)

Avançamos uns séculos e os governantes, gente notoriamente pouco confiável, sem crédito nenhum, decidem dar a volta ao texto, ocorre-lhes fazer uma alquimia e passam a chamar às dívidas que acumularam de crédito, como num passe de mágica. Bem conveniente pois que se há coisa que nunca escasseia nos governos são dívidas, a única coisa que os políticos podem fazer. Reformas e pensões, salários dos funcionários, direitos laborais, preços mínimos legais, bancos centrais, déficit orçamental, são só Dívida, mais nada.

Dívida = Obrigação de Pagar (Falha em Poupar)

Não por acaso, e mais ou menos ao mesmo tempo, os bancos, que já de há muitos séculos tinham perdido a ilusão de prestarem um serviço para o público, para se tornarem num serviço público que não presta, alinharam na transmutação, complementando-a com algumas mascaradas.

a) Passaram a chamar de crédito às dívidas. Usando, para confundir, a linguagem invertida, em que as palavras significam o seu contrário. Exemplo: Quem deve dinheiro porque comprou uma casa, diz que tem um crédito habitação.

b) Na confusão assim criada, os bancos juram que quanto mais gastarem mais robustos e sólidos ficam. Exemplo: Toda a despesa que fazem com publicidade, dizem que aumenta o valor da marca e assim pagar um anúncio na TV conta-lhes como um lucro.

c) Já que uma coisa é o seu contrário, o dinheiro que as pessoas põem nos bancos para lá guardar, eles consideram que foi dado e o podem gastar. Como quanto mais dinheiro gastam, melhores são os resultados dos bancos, toca a gastar mais e ainda por cima cobrar comissões, coitados.

Para ilustrar como se aplicam estes pilares da moderna actividade bancária, eis um exemplo real. Há um tempo atrás, a CGD esbanjou uma fortuna anormal para construir um imenso mamarracho sede. Anos mais tarde, o banco vendeu-se o edifício ao próprio fundo de pensões do banco, registrando um lucro extraordinário com a operação. Quem está à espera de algum bom senso neste caso, não tomou a devida atenção aos pontos atrás explicados.

Adiante, está encontrada a causa para a falta de dinheiro. Caso estejam distraídos com a revelação que o dinheiro que meteram no banco eles já gastaram, é o seguinte:

(1) Os governos chamam crédito às dívidas que fazem e dão-no aos bancos; (2) Os bancos gastam à fartazana, pois juram que quanto mais gastarem melhores os seus resultados; (3) Mais dividas é menos crédito, são opostos; (4) Sem crédito, não há riqueza, e prontos está tudo lixado.

Está ou estava, porque uma vez sabendo que o dinheiro é criado com Crédito e destruído com Dívida e que o crédito se cria poupando, está encontrado o caminho para sair da armadilha do sistema bancário. Adivinharam bem, é aquela moeda da qual os políticos e bancos centrais não gostam nada. 

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Henrique Agostinho