Mercado Bitcoin Portugal
Mercado Bitcoin Portugal
a- A+

Há cerca de 20 anos se alguém anunciasse taxas de juro negativas, ou 0%, como seria tratado? Provavelmente seria enviado para algum hospital psiquiátrico, tal a barbaridade que tinha acabado de proferir.

Uma das características inerentes à natureza humana resulta da sua preferência pelo consumo imediato em detrimento do consumo futuro. O crédito não é mais do que o pagamento ao credor pelo sacrifício de diferir no tempo o seu consumo: a razão de receber juros como forma de pagamento de tal esforço.

Desde sempre, a taxa de juro não foi mais que o resultado do preço estabelecido no mercado de poupança. A oferta e a procura determinavam a taxa de juro. Uma pressão compradora – procura por empréstimos – faria subir a taxa de juro; uma pressão vendedora – oferta de empréstimos, ou seja, aforradores interessados em empresar – faria descer a taxa de juro. Isto era no tempo do não intervencionismo.

De há umas décadas a esta parte, em particular a partir do final dos acordos de Bretton Woods, em 1971, iniciou-se uma crescente intervenção dos bancos centrais; em paralelo, a subida imparável da dívida pública e dos principais índices bolsistas. Como podemos observar na Figura 1, o principal índice norte-americano, o S&P 500, registou uma subida exponencial a partir do momento que as taxas de juro foram administrativamente colocadas a 0% em 2009, como resposta à crise iniciada com a falência do lendário banco norte-americano Lehman Brothers. Desde então, uma tímida subida, apenas de 2%, foi o suficiente para provocar uma correcção do índice S&P 500.

Juros baixos, dívida sem travão

Juros baixos, em resultado de decisões administrativas e não pela existência de excessiva poupança, são o incentivo perfeito para gerar sobreendividamento, em particular no estado, onde a maioria da classe política nunca arriscou um cêntimo do seu bolso em qualquer projecto empresarial; dinheiro grátis é música para os seus ouvidos.

Como podemos observar na Figura 2, desde a adesão de Portugal à União Monetária, o Euro, a dívida pública não pára de subir: em 1999, representava pouco mais de 50% do PIB, hoje está em torno de 130%; ao mesmo tempo, nunca o estado português pagou tão pouco por emitir dívida: durante 2020, chegou mesmo a pagar praticamente 0% por dívida emitida a 10 anos!

Neste momento, em que Portugal é um país absolutamente falido, as obrigações por si emitidas com maturidade a dois anos são negociadas a -0, 619%, ou seja, negativas; vivemos num mundo em que tempo volta para trás.

Agora, informam-nos que taxas de juro reais negativas – taxas de juro nos bancos inferiores à inflação – é um fenómeno de mercado que veio para ficar, uma nova verdade. Não será que as mesmas resultam da compra de títulos de dívida, a partir de moeda emitida do “ar”, provocando a descida da rendibilidade desses títulos, inclusive para um valor negativo?

Com esta montanha de dívida, com juros a 0%, ou mesmo negativos, como acontece para a maioria das maturidades dos estados ocidentais, alguém julga possível que os bancos centrais decidam abandonar os governos, apesar da inflação galopante? Nem pensem nisso, a única forma de pagar esta monstruosa dívida será pela inflação, confiscando os credores, neste caso o banco central, ou seja, a maioria da população, a favor de uma minoria de investidores na bolsa e em Criptomoedas.

As quedas do arranque de 2022

Assim, como explicar as recentes quedas acentuadas dos mercados? Os índices norte-americanos foram os mais que sofreram nos últimos dias, como podemos observar na Figura 3.

Mas o mercado mais afectado no arranque de 2022 foram em definitivo o das Criptomoedas, com quedas entre 20%, no caso da Bitcoin, e 50%, como foi o caso da Solana, tal como podemos observar na Figura 4.

Todo este pânico resultou de uma “ameaça” por parte do presidente da Reserva Federal norte-americana (FED) de que ia subir juros de forma agressiva e deixar de imprimir dinheiro, ou mesmo reduzir a massa monetária, ameaçando diminuir o tamanho do balanço da instituição que preside. Esta semana será decisiva, já que a comissão executiva da FED irá estar reunida dois dias, hoje e amanhã, para decidir se este será o caminho a seguir, por essa razão os mercados estão extremamente nervosos.

Eu julgo que esse não será o caminho adoptado, caso assim seja, certamente uma enorme recessão irá ter lugar, em paralelo com a insolvência da maioria dos estados ocidentais, e isso não é desejado por ninguém. A festa deve continuar, pois vivemos um mundo ao contrário, em que a inflação vai ser combatida por mais inflação!

As novas verdades

Vivemos num mundo de contradições; a educação é universal, as sociedades nunca estiveram tão bem preparadas, o ensino superior democratizou-se, no entanto, as falácias e os sofismas prosperam.

A desinformação sobre temas económicos e de mercados financeiros nunca foi tão gritante; aos nossos olhos, uma elite de banqueiros centrais, burocratas e políticos vendem, todos os dias, patranhas sem qualquer contraditório. Acreditamos acriticamente em tudo o que nos dizem, como se fossem dogmas: eles são os novos presbíteros que nos conduzem à salvação.

Os bancos deixaram de ser bancos; em lugar de entidades que procuram as nossas poupanças e o nosso dinheiro, protegendo ao mesmo tempo a nossa privacidade, são agora gigantescas máquinas de burocratas, directamente ligadas à autoridade tributária, onde a maioria das suas receitas provém da especulação com títulos de dívida do governo, em lugar da tradicional intermediação financeira.

Dizem-nos que as Criptomoedas apenas servem para lavar dinheiro e consumem muita energia; ao mesmo tempo, esquecem de nos esclarecer que todas as transacções são rastreáveis, ao contrário do dinheiro físico, e que o consumo de energia é essencial para um processo de mineração sério, em lugar de um simples apertar do botão.

O charlatão Alves dos Reis imprimia notas iguais às do Banco de Portugal, levando uma vida de luxo durante vários anos em Lisboa. Após ter sido descoberto, foi condenado a 20 anos de prisão, dos quais 12 anos de degredo. Os bancos centrais imprimem moeda sem limites, em particular em 2020 e 2021, algo não possível com o Bitcoin, mas a culpa da inflação é da guerra.

Dizem-nos que estão a combater a inflação com juros próximos de 0% e subidas de 0,5%, enquanto a inflação se aproxima dos dois dígitos, ou mesmo acima, como acontece em alguns países da União Europeia. Em paralelo, diabolizam as StableCoins e exigem a sua regulação, as mesmas que são usadas em projectos DeFi e que remuneram acima da taxa de inflação as poupanças das pessoas.

O medo da deflação

Há dois anos informam-nos que a deflação era algo diabólico, trágico mesmo. Que argumentos eram utilizados para tal conclusão? As pessoas, quando tal acontece, diferem o seu consumo, esperando por preços mais baixos no futuro. Caso tal aconteça, a contracção económica está ao virar da esquina. Funestíssimo! A razão para a loucura monetária que estamos a viver.

Há muitos anos, quando os computadores não paravam de descer de preço, algum consumidor foi tentado a não comprar algo que necessitava de imediato? Alguém no seu perfeito juízo deixa de comprar um bem ou um serviço porque agora custa 100 e daqui a um ano 95? Não será que isto é beneficiar os pobres e desfavorecidos, pois o poder aquisitivo da moeda que têm no bolso incrementa. A subida da produtividade, fruto da acumulação e inovação capitalista, resulta em preços mais baixos para todos: uma verdade que desapareceu!

Propriedade privada e moeda emitida do nada

Podemos ler no artigo 62.º, ponto 1, da Constituição Portuguesa o seguinte: “A todos é garantido o direito à propriedade privada e à sua transmissão em vida ou por morte, nos termos da Constituição.” Será correcto? Os bancos podem utilizar de forma impune o sistema de reservas fraccionadas, ou seja, concederem crédito a particulares e empresas a partir da emissão de moeda do “nada”, diminuindo, desta forma, o poder aquisitivo do dinheiro que temos no bolso, uma óbvia agressão à propriedade privada. Não obstante, esta prática está perfeitamente legalizada e é responsável pelas crises financeiras que atravessamos, cada vez mais acentuadas.

Segundo consta, o fenómeno da inflação resulta da evolução de um índice de preços definido por uma agência governamental: será mesmo assim? Não deveria ser a evolução da massa monetária. Se imaginássemos que o Alves dos Reis, com as suas fantásticas notas falsas, decidia comprar maçãs no mercado de Lisboa, sem qualquer preocupação em relação preço: o que iria acontecer ao mesmo? Correcto: o preço subia! A propriedade privada dos outros era afectada, atendendo que, agora, com a mesma quantidade de dinheiro, compram menos maçãs.

Exactamente o que aconteceu com toda a massa monetária emitida nos últimos dois anos pelos Bancos Centrais. Já alguém reparou na subida do custo de vida dos últimos dois anos: comida, preços das casas, activos financeiros, excepto as acções dos bancos, as Criptomoedas, entre outros, subiram expressivamente e sem cessar.

Não será que massa monetária emitida do ar “correu” para esses bens, provocando subidas exponenciais do seu preço. A título ilustrativo, o Ethereum subiu 1349% e o Bitcoin 340%. Qualquer cidadão se apercebe que os preços sobem de forma inexorável, todavia, segundo a versão oficial, a inflação é algo temporário e irá embora desaparecer em breve.

O preço desse sacrifício, os tais 5% ao ano de quem empresta, quase desapareceu da banca. Quem hoje o quer receber tem de o ir procurar ao mundo das Criptomoedas, aos projectos DeFi.

Madoff e a Segurança Social

O famoso burlão “Bernard Madoff” foi condenado a 150 anos de prisão, após a descoberta de ter sido o principal responsável por um dos maiores esquemas piramidais da história. A Segurança Social funciona exactamente da mesma forma, com apenas duas diferenças:

  • os “clientes” do sistema são obrigados a aderir, com risco de prisão caso não o façam, ao passo que o burlão Madoff tinha de angariar os seus clientes, convencendo-os que tinha uma metodologia de gestão mágica, quase sobrenatural;
  • os “clientes” podem sair do sistema numa idade definida pelo estado e sempre que se sobe essa idade, estamos na presença de uma grande reforma, de enorme coragem. O burlão Madoff informava os clientes que, caso desejassem abandoná-lo e levantar o seu dinheiro, nunca mais poderiam voltar ao clube. A um, chamamos solidariedade intergeracional, a outro, fraude.

Face a este mundo de novas “verdades”, nunca a educação financeira foi tão imprescindível. Se um cidadão deseja proteger as suas poupanças, de uma vida de trabalho, terá que encontrar a solução pelas suas mãos, ou então procurar obter formação e informação com alguém que não aceita este “novo mundo”, de “novas verdades”. No fundo, o importante é não nos tornarmos vítimas do tão celebre pensamento de Joseph Goebbels, ministro da propaganda Nazi: “De tanto se repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade.”

Destaques Autor
img:Mercado Bitcoin Portugal

Mercado Bitcoin Portugal

Destaques Comentários