A conta que o IRS não mostra: quanto vale de facto a tua poupança
A tua poupança tem três valores ao mesmo tempo. Há o valor bruto, que aparece no extrato, e há o valor depois do IRS sobre os juros. Depois vem o terceiro, o que conta de facto: quanto esse dinheiro compra, já descontada a inflação.
Com o Orçamento do Estado 2027 em discussão, o imposto sobre os juros voltou às notícias. Vale a pena fazer a conta inteira, até à última linha.
Porque o Orçamento do Estado 2027 é um bom pretexto
A proposta de Orçamento do Estado 2027 está em discussão no Parlamento. Entre os temas que estão a ganhar atenção estão o IRS sobre juros, o englobamento e a retenção na fonte.
Aqui fica de lado o detalhe da proposta. As regras finais saem da votação, e é no texto aprovado que as confirmas. Para já, interessa outra coisa: o imposto é só uma das camadas entre o saldo e o valor real.
É fácil fazer a primeira conta e ficar por aí. Vês o juro, descontas o imposto e dás o assunto por arrumado. Falta ainda a conta do tempo.
Primeira linha: o valor bruto
O valor bruto é o mais simples de ver. É o capital que puseste a render, mais os juros que o produto indica para o período. Aparece na app, no extrato ou no resumo anual.
Pensa em 10 000 € a render durante um ano. A primeira linha é esse capital mais os juros brutos do ano.
Esta linha é o ponto de partida. Ainda não diz quanto fica para ti, nem o que esse dinheiro vai comprar daqui a um ano.
Segunda linha: o que o IRS leva dos juros
Os juros contam como rendimento, e o IRS aplica-se a eles. O imposto incide sobre o que o dinheiro rendeu, e o capital que lá puseste fica fora desta conta.
Há três peças a acompanhar esta semana, porque estão todas na conversa do Orçamento:
- O IRS sobre juros, a parte do imposto que incide sobre o que a poupança rendeu.
- A retenção na fonte, que vês no extrato quando o imposto já vem descontado antes de o valor chegar à tua conta.
- O englobamento, uma opção da declaração de IRS que muda a forma como os juros entram nas tuas contas com o Estado.
Para a segunda linha, pega nos juros brutos e tira-lhes o imposto. Se houve retenção na fonte, o extrato costuma mostrar o juro líquido. Se pensas optar pelo englobamento, compara as duas versões da declaração antes de a entregar. A escolha depende do resto dos teus rendimentos, por isso a resposta é só tua.
Para o mesmo imposto do lado do salário, vê o que a descida do IRS em novembro muda no recibo.
Esta é a linha que o IRS mostra. A seguinte fica por tua conta.
Terceira linha: o que o teu dinheiro compra
Nesta linha, o saldo fica igual no ecrã. O que muda é o que ele compra no supermercado, no café ou na renda.
A conta faz-se assim: pegas no valor depois do IRS e divides por um mais a taxa de inflação do período. Escreve a inflação em forma decimal e usa o mesmo intervalo de tempo dos juros. É uma divisão, e convém fazê-la assim. Tirar a percentagem diretamente ao valor dá um resultado ligeiramente diferente do correto.
Há uma ideia antiga na história do dinheiro que ajuda a ler esta linha. O número escrito numa nota mantém-se durante anos, enquanto aquilo que essa nota compra vai mudando. Por isso, a pergunta útil sobre uma poupança é quanto ela compra.
Para sentir isto em coisas concretas, vê quanto subiu o café em Portugal. O mesmo raciocínio serve para despesas fixas, como as contas para cuidar de um cão ou gato.
| Linha | O que mostra | Onde vais buscar o dado |
|---|---|---|
| Valor bruto | Capital mais juros antes do imposto | Extrato ou app |
| Depois do IRS | O que fica dos juros depois do imposto | Extrato, retenção na fonte ou declaração de IRS |
| Depois da inflação | O que o dinheiro compra de facto | Taxa de inflação oficial do mesmo período |
A inflação não manda extrato ao fim do mês. Por isso, a terceira linha é a que tens de escrever tu.
Juro líquido e inflação lado a lado
Com as três linhas escritas, compara duas coisas: o juro depois do IRS e a inflação do mesmo período.
Se o juro líquido for maior, o teu dinheiro compra mais no fim do ano do que no início. Se for igual, compra o mesmo. Se a inflação for maior, o saldo pode subir no ecrã e comprar menos coisas.
É esta a comparação que conta. O imposto é visível e fácil de calcular. A inflação é silenciosa e só aparece quando a fazes aparecer.
Vale a pena repetir a conta com o mesmo capital todos os anos. Ao fim de algum tempo, tens um registo teu do que a poupança vale de facto, ano a ano.
A conta líquida como hábito
A conta líquida é um hábito simples: uma vez por ano, ou sempre que o Orçamento mexe nas regras, escreves as três linhas e comparas com o ano anterior.
Se subscreveste o Aforro Digital, a lógica é igual: partes da taxa estimada da tua emissão, aplicas o imposto que corresponder ao teu caso e descontas a inflação do período. A AFD05, a emissão aberta, tem rendimento em reais, por isso a conversão para euros também entra na conta.
Fazer a conta com calma dá-te uma coisa que o extrato sozinho não dá: saber o que a tua poupança vale em coisas que usas todos os dias.
Quando o Orçamento do Estado 2027 for votado, confirma as regras no texto final e atualiza a linha do IRS.
Faz a conta das três linhas e guarda-a para o ano que vem.
