Crise bancária: Bitcoin tornar-se-á a moeda do mundo?
No presente ano, estamos a viver uma crise bancária que parece estar apenas a começar. Já tivemos a queda de três bancos norte-americanos: o Silvergate, o Silicon Valley e o Signature.
Tudo indicava que o Credit Suisse iria pelo mesmo caminho, mas foi salvo in extremis pelo governo suíço, após este ter prestado uma garantia contra perdas no valor de 9 mil milhões de Francos suíços (CHFs) para que o UBS, o seu principal concorrente, aceitasse adquiri-lo – deduz-se que o armário deverá estar atolado de cadáveres! A leitura do mesmo fim-de-semana pelo lado do sistema fiat está em No final só pode haver um.
A resposta dos bancos centrais
Entretanto, os Bancos Centrais não têm parado de intervir, no sentido de devolver a necessária “confiança” ao “bom funcionamento” do sistema bancário; no caso do Credit Suisse, após a queda do Silicon Valley, o Banco Central suíço aprovou uma linha de crédito de 50 mil milhões CHFs a seu favor. O Banco Central norte-americano foi ainda mais longe: forneceu uma linha de crédito de 2 biliões de Dólares norte-americanos (USD) a todo o sistema bancário norte-americano, aceitando colateral avaliado ao custo de aquisição – as regras são sempre ajustáveis!
Entretanto, depois de muitas juras no combate à inflação, o balanço do Banco Central norte-americano voltou a expandir-se, desta vez, 300 mil milhões de USD em apenas duas semanas – ver Figura 1. Os bancos são agora a prioridade, a inflação fica para depois!

Será que esta crise apareceu do nada, de forma acidental?
O comportamento das administrações antes do colapso
Aparentemente, os CEOs e as administrações destas instituições conheciam em profundidade a situação, pois “abandonaram o barco” mesmo a tempo.
Uns dias antes do colapso do Silicon Valley (SVB), o seu então CEO “despachou” o equivalente a 4 milhões de USD em ações (SVB); o mesmo fez o fundo de Peter Thiel, o Founders Fund, neste caso transferiu para outras instituições bancárias todos os depósitos no SVB. O mesmo fez o nosso celebérrimo banqueiro Horta Osório com as suas ações do Credit Suisse. Todos sabiam, menos o público e os reguladores, já que a 9 de março, 1 dia antes, o Departamento de Proteção Financeira e Inovação do Estado norte-americano da Califórnia afirmava: o SVB era uma “instituição sólida!”
Da expansão monetária à inflação
Toda esta sequência de eventos aparenta ser deliberada. Senão vejamos; numa primeira fase, imprimiu-se dinheiro como não houvesse amanhã; claro está, nunca nos podemos esquecer que foi em nome da salvação da Economia, um bem maior. Entre março de 2020 e abril de 2022, o balanço do Banco Central norte-americano expandiu-se em 4,8 biliões de USD (12 zeros) – ver Figura 1.
Em consequência da enorme expansão monetária, os preços das principais matérias-primas dispararam. Como podemos observar na Figura 2, entre março de 2020 e o início da guerra na Ucrânia, fevereiro de 2022, as subidas foram assinaláveis! Alguns exemplos: o Petróleo subiu 351%, ao ritmo de 121%/ano, o Gás Natural subiu 169%, ao ritmo de 68%/ano e a Aveia subiu 155%, ao ritmo de 64%/ano – ainda alguém se surpreende com uma inflação a dois dígitos?

Em resumo, a energia e a comida foram inflacionadas por biliões e biliões impressos – criados do nada – pelos Bancos Centrais.
Subida de juros e o efeito nos balanços
Com a subida das taxas de juro pelos Bancos Centrais para “combater” aquilo que criaram! – a inflação que vivemos -, os ativos dos bancos perderam valor de mercado. Como expliquei em anterior artigo, a taxa de juro tem uma relação inversa com o valor das obrigações com cupão fixo, como é o caso das obrigações do tesouro. Que “alvos” foram escolhidos para esta crise bancária?
Precisamente os bancos que tinham uma “boa relação” – enfim, proporcionavam serviços bancários normais, como uma conta bancária e transferências – com as empresas de Criptomoedas: o Silvergate e o Signature, ambos com investimentos no setor; o SVB com fortes ligações à comunidade empresarial da Califórnia dona de empresas de Criptomoedas.
A reacção regulatória
De imediato soaram os alarmes; a mesma regulação que nada viu, parece ser agora a inevitável solução: as Criptomoedas são seguramente as “culpadas de tudo isto”. Na televisão portuguesa até afirmavam o seguinte: “o Signature tem depósitos em Criptomoedas, Bitcoin e outras” – sacrilégio! – e o Silvergate – vejam lá! – prestava serviços bancários à FTX. Um crime de lesa-pátria! Podemos concluir que as pessoas deste sector devem ser tratadas como párias.
Concentração no sector bancário
A etapa seguinte é agora a concentração a favor dos bancos gigantes norte-americanos, atendendo que os pequenos são mais frágeis na hora de uma eventual corrida ao banco – vejam lá, os clientes apenas reclamam o que é seu!
Como podemos observar na Figura 3, são os bancos de média dimensão, como o First Republic Bank, que estão a sofrer fortes quedas em bolsa no presente ano, até à sessão de 22 de março perdia 90% desde o início do ano. O Bank of America, que cai 17% no presente ano, registou uma subida assinalável dos depósitos de clientes após a queda do SVB.
Os bancos da zona Euro, como é caso do nosso conhecido Millennium BCP, todos muito obedientes a empurrar as empresas de Criptomoedas para a marginalidade, apesar da grandiloquente asserção num passado próximo: “Não vamos passar a ser um banco cripto, o cripto é que vai passar a fazer parte do BCP”, registam bons desempenhos em bolsa, passando ao lado desta crise.

Entretanto, também importa assinalar que os investidores começam a dar-se conta que não há nada mais seguro que Bitcoins e Ethereums num endereço (wallet) por si controlado. Desde o início do ano, registam subidas de 60% e 40%, respetivamente, apesar da morte anunciada do Bitcoin no final de 2022.
A entrada em cena das CBDC
Assim, tudo está preparado para o anúncio da solução numa bandeja de prata: a Moeda Digital do Banco Central, mais conhecida pela sigla inglesa CBDC. São mais seguras que os bancos e certamente “mais reguladas” que as Criptomoedas, como o Bitcoin; estou certo que será esta a linha de argumentação nos próximos tempos.
Para quê continuar com os bancos, quando agora estão todos falidos? Nada como eliminar os bancos, que apenas atrapalham, e passar a usar unicamente as CBDCs. Uma coisa está garantida: o Banco Central nunca abrirá falência, basta digitar zeros no computador e o dinheiro, neste caso tokens, aparece. Qual a necessidade de dormir mal se o risco de falência é totalmente eliminado, bastando utilizar unicamente a CBDC?
Há apenas um detalhe nesta narrativa perfeita em que importa refletir. O número de CBDCs em circulação não terá limite, podendo haver um risco de elevada inflação; por outro lado, servirá como instrumento de controlo social, pois até o Banco Central norte-americano o confessa.
Estimado leitor: não se deixe embalar pelo canto da sereia, confie no Bitcoin, a moeda mais segura do mundo!
Depósito bancário e bitcoin: dois perfis de risco distintos
Uma comparação útil tem de separar riscos que são de natureza diferente. Um depósito bancário tem valor nominal certo e, dentro de limites definidos por lei, beneficia de um sistema de garantia de depósitos; os seus riscos são o incumprimento da instituição acima desse limite e a erosão do poder de compra pela inflação. Deter bitcoin em auto-custódia não envolve contraparte — não há instituição que possa falir com os fundos —, mas o valor em euros pode descer de forma acentuada em períodos curtos, sem garantia de qualquer espécie.
Daqui não decorre que um seja melhor do que o outro: decorre que respondem a preocupações diferentes. Quem procura certeza nominal de curto prazo e quem procura escassez de longo prazo não estão a resolver o mesmo problema. Confundir as duas coisas é a origem da maioria das decisões mal calibradas neste domínio.
O que é, em concreto, uma moeda digital de banco central
Uma CBDC é uma responsabilidade directa do banco central, tal como as notas, mas em forma digital. Não é uma criptomoeda no sentido do Bitcoin: a emissão é discricionária, o registo é controlado pela autoridade emitente e não existe validação por participantes independentes. As escolhas de desenho — se há limites de detenção, que grau de privacidade é assegurado nos pagamentos de pequeno montante, se remunera ou não — determinam quase tudo o que importa, e continuam em discussão pública na União Europeia.
É por isso que a avaliação deste instrumento deve incidir sobre o desenho concreto que vier a ser adoptado, e não sobre a categoria em abstracto. Os dois lados do debate estão desenvolvidos em Bitcoin vs CBDC e em Euro Digital.
O que fica por saber
Um texto escrito no decurso de uma crise contém, necessariamente, leituras que só o tempo confirma ou desmente. Convém, por isso, distinguir três planos: os factos verificáveis — falências, intervenções, decisões de política monetária —, as interpretações sobre as suas causas, e as previsões sobre o que se seguirá. Apenas o primeiro plano é verificável no momento em que se escreve.
Nada do que antecede constitui recomendação de investimento nem previsão sobre a evolução de qualquer activo. Como qualquer criptoactivo, o bitcoin é volátil e o seu valor pode variar de forma acentuada em períodos curtos; a guarda destes activos comporta riscos operacionais próprios, tratados em carteiras de bitcoin: guardar e proteger, e as obrigações declarativas em Portugal estão resumidas em impostos sobre criptomoedas.
Transaccionar criptomoedas envolve riscos, tanto na negociação como no armazenamento das mesmas, por esta razão é fundamental que o seu parceiro nesta jornada possa garantir a segurança das suas operações.
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